por Rafael Karasu (ra****@**********er.com)
Foto: Mateus Mondini
publicado originalmente em BONECA (Japão) #244
11/07
Uma das bandas brasileiras de punk rock mais duradouras, os Ratos de Porão iniciaram sua carreira em 1981, em sua cidade natal, São Paulo.
Apresente a formação atual do Ratos de Porão ao público japonês.
Atualmente, a banda Ratos de Porão é formada por: Gordo nos vocais, Jão na guitarra, Juninho no baixo e eu, Boka, na bateria.
O que motiva vocês a continuarem tocando há mais de duas décadas?
A música e essa banda são o que temos feito durante a maior parte de nossas vidas, então isso é realmente uma parte muito importante da nossa identidade. Adoramos tocar e temos uma forte ligação com o hardcore, o thrash e o underground. Gostamos de viajar, temos um bom relacionamento e isso nos ajuda a não perder o interesse e a continuar tocando juntos como Ratos de Porão, mas acho que o principal motivo é o amor pela música que gostamos e fazemos.
O que o punk/hardcore significa na vida de vocês? Os Ratos de Porão podem ser considerados uma banda punk/hardcore tanto em termos de sonoridade quanto de atitude?
Cada pessoa tem sua própria compreensão do que é ou não é punk. Existem muitas concepções sobre sonoridade, atitude e ideias no que se chama de “punk”; muitas pessoas acreditam que existe uma maneira correta de ser punk ou algo do tipo. Gosto do DIY, gosto de tirar minhas próprias conclusões sobre tudo o que está ao meu redor; ser independente no sentido de poder fazer o que quero com minha própria vida, banda, música etc… é o mais importante. Em termos de sonoridade, somos uma banda que, há muitos anos, vem unindo hardcore e metal, e é assim que queremos soar. Portanto, eu diria que somos uma banda de hardcore metal e que nossas letras retratam situações da vida cotidiana e injustiça social, os privilégios da classe alta e a luta das pessoas simples para superar seus problemas.
Assisti a um documentário sobre o movimento punk brasileiro e, em uma cena específica, João Gordo e um amigo estavam carregando amplificadores enormes para um local onde aconteceria um show. Como é relembrar as dificuldades dos primeiros anos da banda?
Bem, tudo era bem diferente por aqui naquela época, mas acredito que fosse assim em todos os lugares. A questão é que, nos países do Terceiro Mundo, com uma economia carente e profunda desigualdade social, conseguir instrumentos para montar uma banda, organizar um show ou gravar um disco ainda é muito mais difícil do que em um país onde a situação econômica facilita o acesso a tudo. As dificuldades ainda persistem, mas a intensidade e as situações diferem do que vivemos no passado.
Qual é a diferença entre o hardcore da época em que vocês começaram e o que ele é hoje em dia?
Acho que hoje em dia tudo é mais fácil e há muito mais coisas acontecendo, o que considero algo positivo. Antigamente, era preciso construir uma rede de contatos por meio de cartas, tudo demorava muito tempo e agora basta um “clique”. Era muito difícil conseguir um disco ou saber o que estava rolando em outras cenas, como na Europa e nos EUA; os recursos para dar impulso às cenas locais eram escassos. Hoje tudo é mais rápido, mas se o que você está fazendo é sincero, não importa o que está acontecendo agora, nem o que aconteceu há 20 anos. Não sou nostálgico; para mim, tudo é muito legal quando se trata da cena underground… muita gente diz que há uma indústria e uma mídia distorcendo o que é o “punk”, de modo geral, mas isso acontece desde 1977, só que em circunstâncias bem diferentes das que vemos hoje. Essa é uma questão complexa e há muitos aspectos a serem analisados; eu poderia passar um dia inteiro só falando sobre isso.
Qual é a opinião da banda sobre a cena punk/hardcore em São Paulo e no Brasil em geral?
Está bombando, tem muitos shows, bandas e gente fazendo coisas por toda parte. Às vezes, há menos gente envolvida, mas acho que esse ciclo existe em todo lugar; o que importa é que o hardcore está vivo e ainda tem muito mais por vir. Gosto muito do que está rolando no Brasil ultimamente.
Em quais outros projetos os membros da banda estão envolvidos?
Toco na banda I Shot Cyrus e já fiz duas turnês com o Vitamix X (Holanda), incluindo uma no Japão. Tenho uma gravadora e distribuidora, a Pecúlio Discos, desde 1997. O Jão toca na Periferia S.A., o Juninho toca na Discarga, no O Inimigo e no Eu Serei A Hiena, além de ajudar a organizar o Verdurada, que é um dos maiores festivais de hardcore de São Paulo. O Gordo trabalha na MTV Brasil há mais de 10 anos, onde basicamente entrevista todo tipo de celebridade ou faz coisas mais malucas, como no “Gordo Freak Show”, um programa em que bandas tocavam enquanto os participantes faziam as coisas mais bizarras, e que ficou no ar por cerca de dois anos, eu acho.
Quantas turnês pela Europa a banda já fez, e em quais países vocês já se apresentaram?
Já perdi a conta, mas na Europa já estivemos praticamente em todos os lugares: Espanha, Portugal, Itália, França, Bélgica, Holanda, Reino Unido, Croácia, Hungria, República Tcheca, Eslovênia, Polônia, Dinamarca e outros, eu acho. Também fizemos shows nos EUA e em muitos países da América do Sul, como Argentina, Uruguai, Peru, Equador e Chile.
Como é crescer no meio do hardcore? Pergunto isso porque acredito que, quando vocês começaram a tocar em bandas, nunca imaginaram que continuariam fazendo isso pelo resto da vida.
Às vezes, quando olho para trás, não consigo acreditar que já passou tanto tempo. Tenho 36 anos e estou envolvido com o hardcore há 21 anos. Acho que é uma experiência muito louca e gratificante; afinal, estamos sempre viajando, conhecendo novas pessoas, tirando nossas próprias conclusões sobre como a sociedade funciona e como nos vemos como parte dela. Certamente, se eu não tivesse me envolvido com o hardcore, seria uma pessoa muito diferente daquela que sou agora e, para ser sincero, gosto muito de como as coisas acabaram; se tivesse que voltar no tempo, faria tudo de novo. Também não consigo me imaginar longe disso num futuro próximo; às vezes fico triste quando percebo que algumas pessoas estão se afastando, virando a página e vivendo com a ideia de que isso foi apenas uma parte da juventude delas, que agora não significa mais nada. Tudo bem se você mudou de opinião e começou a se interessar por outras coisas, mas não consigo me imaginar seguindo esse caminho algum dia.
Qual é a sua opinião sobre viver exclusivamente da música, e de que forma o punk/hardcore contribuiu para isso?
Não vejo nada de errado em fazer o que você gosta e ser pago por isso, mas no cenário underground isso é impossível. Para viver só de música, você precisa ser um músico profissional que seja constantemente contratado por estúdios, gravadoras e artistas, dar aulas de um instrumento e coisas do tipo, ou tocar em uma banda pop que venda milhões de discos e faça mais de 100 shows por ano. Outra questão é ter uma banda como o Ratos de Porão, que tem muitas despesas para se manter viva, mas também exige muita dedicação e esforço dos integrantes para que ela possa seguir em frente. Portanto, é óbvio que estamos sempre precisando de dinheiro para cobrir nossas despesas, mas acredito que viver exclusivamente de uma banda seja muito difícil. Eu até tento, mas muitas vezes precisamos encontrar outras formas de ganhar dinheiro; acredito que isso aconteça com todos os artistas underground. Mas, afinal, quem não gostaria de simplesmente tocar um instrumento pelo resto da vida?
O que os integrantes da banda estão ouvindo atualmente?
Não posso perguntar aos outros agora, mas todos nós temos a mente bastante aberta quando se trata de música. Sei que o Gordo curte bastante grindcore, crossover e rock dos anos 70, e o Jão curte punk de 77, hardcore americano, thrash metal e rock dos anos 70 também. O Juninho curte bandas de punk americano old school, coisas extremas, a cena de Washington D.C., soul, funk e jazz. E eu curto muito a nova onda do hardcore americano, que tá bem produtiva hoje em dia, várias bandas de thrash metal e crossover dos anos 80 e as atuais também, além de ser fanático por bebop e hard bop. No hardcore japonês, gosto muito das bandas que descobri há mais de quinze anos, como Lipcream, Outo, Gauze, Rose Rose, Casbah, e também das mais recentes que descobri quando fui ao Japão com o Vitamin X, como Freaks, Gammy, Crucial Section e Total Fury.
“Homem Inimigo do Homem” é o mais recente álbum lançado pela banda, pela Deckdisc no Brasil e pela Alternative Tentacles nos EUA. Como foi a produção? Vocês ficaram satisfeitos com os resultados?
Gravamos esse álbum em analógico e o mixamos em um estúdio incrível com nosso amigo de longa data, Daniel “Ganjaman”. Bernardo Pacheco fez toda a gravação; ele é um jovem produtor que vem ganhando reconhecimento por aqui ultimamente. O resultado foi excelente para nós: muita intensidade e sonoridade suja, combinando perfeitamente com o som que fazemos.
Desde 2003, vem surgindo no Brasil uma nova onda de bandas de punk/hardcore. Como você vê essa revitalização? Quais bandas/artistas você considera de destaque?
Muitas bandas surgem o tempo todo, não só no Brasil, mas em todo lugar; acho que foi mais ou menos isso que respondi na pergunta sobre as dificuldades que enfrentamos e como, hoje em dia, tudo está a apenas um “clique” de distância. Isso é realmente encorajador e favorece as muitas bandas que estão surgindo. Posso citar bandas como Alarme, Ex-Inferis, La Revancha, Bandanos, B.U.S.H. e muitas outras. Se eu continuar pensando, já teria mais 30 nomes agora, todas bandas muito boas. Isso é incrível: sangue novo e também veteranos formando novas bandas. Sempre que tem um show, tem coisas boas pra conferir.
O que vocês estariam fazendo se não fosse pelo punk/hardcore nas suas vidas?
Não faço ideia, acho que estaria fazendo algo relacionado a esportes. Sou uma pessoa muito ativa, gosto de nadar, surfar, correr…
Quando recebemos notícias do Brasil, sempre há mais desemprego, corrupção e violência. O que você acha que o futuro reserva para o país?
O que acontece no Brasil é o que acontece globalmente; em termos gerais, isso significa que há cada vez mais riqueza nas mãos de cada vez menos pessoas. Percebo que esses problemas não são de natureza técnica, nem decorrem de falta de competência, falta de honestidade ou qualquer outra das razões em que a maioria das pessoas acredita — razões essas que são veiculadas diariamente pelos políticos e pela grande mídia nas notícias. Essas questões de desigualdade são resultado do conflito de interesses que está na base do capitalismo. Somente uma profunda transformação da sociedade em todos os níveis tornará possível atender aos interesses de todas as pessoas de maneira igualitária. É por isso que considero que falar apenas dos problemas do Brasil é uma análise simplista e muito incompleta da nossa realidade. Não há possibilidade hoje – e acredito que essa possibilidade já não exista há muito tempo – de transformar a realidade de um país ou território sozinho. O capitalismo é global, e as injustiças também o são.
O primeiro álbum da banda, “Crucificados Pelo Sistema”, foi lançado no Japão pela Speed State Records e hoje em dia é muito difícil de encontrar. Você gostaria que outros álbuns da banda fossem lançados por aqui?
Acho que alguns discos acabam chegando ao Japão por meio da Alternative Tentacles. O caso da Speed State é diferente: é uma gravadora especializada em reeditar álbuns clássicos, e que não mantém um título em seu catálogo para sempre. Sem dúvida, seria muito interessante ter nossos discos por lá, e isso facilitaria que as pessoas conhecessem o que fazemos atualmente.
Você esteve no Japão com a banda Vitamin X em novembro de 2005. O que você viu por aqui? Conte aos nossos leitores qual foi a impressão que você teve do nosso país.
Cara, minha viagem com o Vitamin X foi demais, não tinha como eu recusar o convite para tocar no Japão. Tive tempo de passear por Tóquio, Osaka, Hiroshima… Até encontrei uns amigos do Brasil que eu nem fazia ideia de que estavam no Japão. Os shows foram todos muito legais, dividimos o palco com várias bandas iradas. Conhecer um monte de gente e ter a oportunidade de ver de perto como as coisas funcionam num lugar completamente diferente de onde moro foi incrível. Comprei muitos discos e tudo foi realmente incrível. A receptividade de todo mundo foi incrível e também percebi que muita gente no Japão conhece os Ratos de Porão.
Muitas bandas brasileiras querem se apresentar no Japão. Quais são as chances de os Ratos de Porão virem para cá fazer uma turnê?
No momento, estamos focados em tocar em lugares onde nunca tocamos antes, e o Japão é um deles. Acho que todos nós sonhamos em fazer alguns shows por lá um dia; afinal, o Japão tem bandas excelentes e shows bem loucos. É um choque cultural radical para os sul-americanos, uma experiência de vida incrível.
O que você sabe sobre a cena hardcore japonesa? Quais bandas você gosta e o que mais te impressiona nelas?
O que mais me impressiona neles é a qualidade dos músicos e também a quantidade de boas bandas no Japão. Lembro que, durante a turnê do Vitamin X, todas as noites tocavam bandas incríveis, sem falar que é um paraíso para quem gosta de discos: há lojas excelentes e dá para encontrar muitas coisas boas. Conheço muitas bandas e gravadoras que já mencionei em outra resposta: Gauze, Death Side, Rose Rose, S.O.B. e coisas mais recentes como Razors Edge, Vivisick, Freaks — bandas incríveis. Sem dúvida, o hardcore japonês é emblemático, tem muita história e é adorado e respeitado em todo o mundo.
Que mensagem você gostaria de deixar para os leitores japoneses da Doll e para os fãs do Ratos de Porão aqui no Japão?
Gostaríamos de, um dia, tocar para vocês e agradecemos por toda a admiração e respeito que demonstraram pelos Ratos de Porão. Desejo que o hardcore japonês continue sendo selvagem, insano e inspirador como sempre. Sejam determinados e continuem avançando!
Contatos:
www.myspace.com/ratos